
Tarde fatídica
Abril 15, 2008O ambiente era pesado e constantemente cansativo. As instalações não eram as mais confortáveis e Tamar já tinha rejeitado algumas refeições da hospedaria. O arroz-com-feijão empapado era muito pesado para Tamar e ela já estava se sentindo estufada demais. O que a estava irritando mesmo era a bagunça do lugar. Ela já não aguentava mais a correria das crianças estrangeiras e as gritarias que vira-e-mexe estouravam em algum canto da hospedaria.
Os adultos também estavam irritadiços. Praticamente todos os outros judeus já haviam conseguido trabalho e a família de Tamar era uma das única que restavam na hospedaria. Tamar lembra de seu pai andando de um lado para o outro do quarto preocupado. Sua mãe, mulher sábia e que sempre falava pouco, estava falando menos ainda. Havia algo pesado no ar.
Naquela tarde fatídica o seu pai tinha saído para procurar trabalho. O cabeça-dura não aceitava qualquer trabalho braçal e isto prolongava a estada temporária deles por mais tempo do que imaginavam. Tamar e sua mãe ficaram no quarto como já tinham ficado por vários dias. Tentavam ficar próximas da janela não só pelo ar fresco que entrava timidamente mas como também para utilizar um pouco da luz para tricotar. Tamar teve uma ótima tutora nas artes manuais.
O quarto ao lado estava desocupado desde o dia anterior. Uma enorme e barulhenta família de italianos tinha deixado a hospedaria para trabalhar nas lavouras de café. Tamar e sua mãe apreciavam um pouco do silêncio rejuvenescedor naquela tarde.
O silêncio sagrado daquela tarde rompido entretanto. Uma nova família chegou. Tamar e sua mão não puderam ver de onde eram ou nem quantos eram mas, pela algazarra que faziam, pareciam muitos. Na verdade, pelo que Tamar conseguia se recordar pareciam mais adultos bêbados do que efetivamente uma família.
A paz especial daquela tarde havia sido destruída. E foi tudo muito rápido. Os novos ocupantes do quarto começaram a discutir fervorosamente. Brigavam por alguma coisa. Nem Tamar nem sua mãe sabiam o que estava acontecendo. Apenas ouviam a barulheira e os gritos numa língua estranha. Os homens que gritavam pareciam ainda mais bêbados do que antes.
Tamar começou a chorar e sua mãe estava muito irritada. Já não bastasse os inúmeros dias viajando precariamente de navio, mais aquela hospedaria simplista, suja e barulhenta de onde parecia que eles nunca iriam sair. Sua mãe se levantou resoluta e, sem olhar para trás, caminhou para o corredor. Tamar ficou chorando perto da janela.
Alguns minutos passaram sem que o barulho se alterasse. Como que num sonho ruim, Tamar lembra-se que, sem razão aparente, ouviu um grito desesperado da sua mãe seguido de um estrondo e depois muitos outros gritos. Era algo surreal. A hospedaria entrou num total alvoroço e Tamar não fazia a menor idéia do que estava acontecendo. Ela só sabia que era algo ruim. Muito ruim.
As pessoas corriam desesperadamente no corredor e gritavam. Tamar chorava com todas as suas forças. Gritava por sua mãe mas não ouvia nada além da confusão que havia se instaurado. Tentou sair para o corredor mas não conseguia. Muita gente corria por lá. Uma senhora de língua estranha a pegou no colo e levou para o lado de fora da hospedaria.
Tamar lembra muito pouco do que aconteceu depois. A imagem mais vívida que se segue em suas lembranças é o do pai transtornado, chorando copiosamente e comunicando a morte de sua mãe. Daquele dia em diante Tamar precisaria ser forte, precisaria ser firme, precisaria ser como sua mãe.
Daquele dia em diante a pequena Tamar ficava naquele quarto da hospedaria. De lá sairia Myetta Schreier, nome de sua mãe e que Tamar passaria a utilizar como seu pelo resto da vida.
Reviravolta hein!!!
Sensacional!
PS:sem palavras no momento pra descrever tamanho apreço pelos capitulos.
PARABENS!
NOSSA! QUE TRAGÉDIA PERDI O FOLEGO. MAS ACHEI LEGAL E ME EMOCIONEI CONTINUEM A EXPECTATIVA É GRANDE, PARABENS AOS MOCINHOS.