
A Hospedaria do Brás
Março 13, 2008A pequena Tamar era muito pequena na época para recordar de todos os detalhes daquela que tinha sido a maior aventura de sua vida. Mesmo assim lembrava de muitas coisas. Lembrava que a viagem demorou muito e que o navio chacoalhava demais. Era difícil comer e dormir com aquele vai-e-vem constante. Todos os dias.
Os antigos navios que transportavam os imigrantes Europeus para o novo mundo eram grosseiros e sem conforto. Este tinha a inscrição “Asia” e possuía acomodação para 50 pessoas na primeira classe, 75 no segunda e 1.500 na terceira classe. Era na terceira classe que Tamar corria juntamente com centenas de outras crianças. Dois grandes mastros possibilitavam uma velocidade máxima de 16 nós. Definitivamente aquele não era um navio moderno, mas a guerra havia consumido os melhores recursos e não haviam dúvidas que aquele era o melhor meio de se fugir do horror da guerra.
As histórias sobre o novo mundo eram fantásticas. Ouvia-se que por lá feras bestiais passeavam nas matas fechadas e nas águas, peixes gigantescos repousavam no leito do rio. Mulheres nuas caminhavam na floresta povoada de aves multicolores, macacos de todos os tamanhos. No profundo da noite, cobras capazes de engolirem um cavalo inteiro espreitavamo por detrás das moitas e arbustos.
Esse mundo mítico formulava a imagem do Brasil que Tamar encontraria quando as primeiras silhuetas de terra se formaram no longínquo horizonte do atlântico.
Sair de seu país natal nunca é algo fácil. O choque de culturas é inevitável; a saudade da sua terra também é algo confuso, mesmo que ela esteja assolada pela guerra que não é nossa. Fato é que Tamar não queria mais ficar lá – ao mesmo tempo que também queria.
Chegando ao Brasil, Tamar notou que o cenário era outro: milhares e milhares de imigrantes vindos de vários países da Europa e Ásia faziam uma refilmagem da torre de Babel em pleno Brás, bairro urbano da cidade de São Paulo.
A Hospedaria de Imigrantes, um imponente complexo de prédios, construído em 1888 no bairro do Brás, tinha a finalidade de receber e encaminhar ao trabalho, na lavoura, os imigrantes trazidos por conta do Governo Provincial de São Paulo. A Hospedaria que antes funcionava no Bom Retiro, com capacidade para somente 500 pessoas e havia se tornado insalubre, em virtude das epidemias que assolavam aquele bairro, era imponente, grande e superpopulosa. De fato, muitos doentes e sujeira também estavam ali no meio daquela gente toda, mal-tratada pelo duro trabalho, e pelas longas viagens sem conforto. Com o aparecimento das primeiras indústrias o perfil da mão-de-obra ganharia mais uma faceta, surgindo uma classe operária numerosa, forte e combativa.
Este processo, conhecido como imigração massiva, já ocorria desde a metade do século XIX. O fim da escravidão colocou em xeque o sistema de trabalho nas fazendas, tornando irreversível a necessidade de trabalhadores para as emergentes plantações de café.
Após a cansativa viagem, os imigrantes ficavam na Hospedaria por até oito dias. Em geral esse prazo era suficiente para que acertassem os seus contratos de trabalho. Nesse período utilizavam gratuitamente todos os serviços disponíveis. Lá eles dormiam, faziam as suas refeições, recebiam atendimento médico e conseguiam seus empregos.
Lá também Tamar e seus pais conheceram muitos judeus desiludidos. Pessoas que tiveram suas famílias massacradas, seus bens tomados e suas histórias riscadas. Obrigados a fugir para um país desconhecido e trabalharem em serviços braçais.
Em seu segundo dia na hospedaria, Tamar ainda vislumbrava o constante vai e vem. Seu pai dizia que ao quarto dia rumariam para o interior, onde certamente seria mais tranqüilo e diferente daquela agitação. Tamar ainda não se comunicava direito com as outras crianças espanholas e italianas. Eram todos muito diferentes uns dos outros e as vezes, choques culturais causavam brigas entre as etnias hospedadas. Sob este pano de fundo a doce menina presenciaria uma cena e seria marcada para o resto de sua vida.
TUDO É MUITO BONITO NAVIOS IMIGRANTES ETC MAS E O PACA?? JÁ PERGUNTARAM NÉ, E A NOIVA E OS PAIS ONDE FICAM NESTA,OU EM OUTRA HISTORIA TA BOM VAMOS ESPERAR PRA VER O VAI DAR