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Síncope Neurocardiogênica

Janeiro 28, 2008

“Se aqui é o céu, não quero ficar”.

Com esse sarcástico pensamento Paulo desperta com a testa encostada sobre o volante, um médico gordo e barbudo dando tapinhas leves em seu rosto.

- Oi. Oi rapaz, está tudo bem?

- Oi, não sei ainda… o que aconteceu?

- Bom… preciso saber se você está com algum ferimento ou consegue se movimentar. Parece que está tudo bem, certo?

- Acho que sim! Ao movimentar-se, Paulo notou um pouco de sangue na sua testa, do lado esquerdo.

Haviam dois médicos no local e uma viatura de primeiros socorros da concessionária da rodovia. O médico e seu ajudante logo perceberam que não havia nada grave.

- Vamos limpar esse sangue, foi apenas um pequeno corte, você deve ter batido a cabeça no vidro e teve uma síncope neurocardiogênica.

- Um desmaio?

- Garoto esperto! Mas a contusão na cabeça não parece séria para desencadear um desmaio, você está passando por algum estresse emocional, ou está muito cansado, sem dormir ou ainda não se alimentou direito nas últimas horas?

- Sim… – disse Paulo com um leve sorriso – todas alternativas estão corretas.

Enquanto falava em um rádio com a central o ajudante do médico exclamou:

- É rapaz… terá que chamar o guincho, seu radiador está furado… Esses carros novos são assim, bateu o pára-choque de plástico e pronto, já estraga o radiador.

Somente aí Paulo se lembrou de sair do carro e olhá-lo para ver o tamanho do estrago. Não foi forte. Mas ele não poderia continuar a viagem.

Depois de mais de uma hora de negociações, Paulo convenceu os doutores de que não necessitaria ir ao hospital e que poderia esperar o guincho, ali mesmo. Não estava no protocolo, o médico reportou em sua ata de atendimento e cedeu, já que viu o estado aparentemente saudável do rapaz. Os médicos se foram e ele ficou ali. Sob um forte sol vespertino na Rodovia dos Bandeirantes (SP-348) Paulo ficou esperando o guincho da concessionária que não poderia levá-lo até São Paulo, mas daria uma “carona” até Campinas onde de lá poderia acionar o seguro ou chamar alguém. Paulo estava absorto e nesse momento sua mente estava bloqueada. Chamar quem? Meus pais sumiram, eu bati o carro de minha ex-noiva e fora ser tachado de fracassado ela não tem como me ajudar.

Sentou-se embaixo de uma mangueira carregada de mangas coquinho. Paulo fitava o horizonte sem fixar o olhos em nada, sua mente vagava no mais completo vácuo sideral. Não havia reações, expectativas, ele não sabia o que fazer. O celular toca, o visor indica “Antônio (USP)”.

- Alô? – diz Paulo catatônico

- Oi Paulão! Você não vê mais e-mail? “Tava” precisando te ver! É o Tonhão da “facu”! Beleza?

- Tonhão, preciso da sua ajuda cara.

- Que é isso meu? Que voz é essa?

Paca explicou a situação e seu amigo não hesitou em socorrê-lo, disse que em uma hora no máximo estaria por lá. Paulo aguardava o guincho e pensou em como esse amigo surgia em momentos críticos de sua vida. Talvez Antônio fosse realmente um amigo. Foi assim quando Priscilla desistiu. Pensou que talvez Deus o colocasse em seu caminho para lhe ajudar. “Por quê Deus de novo?” – exclamou.

2 comments

  1. Tadinho do bichinho, tão solito…!!


  2. estou cansada e curiosa volto logo, coitado desse Paca precisa mesmo de Deus!



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