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Motivos

Janeiro 28, 2008

Anos de namoro se arrastaram até o noivado. Desde então Paulo estava apreensivo com sua relação. Quando lhe perguntavam sobre o casamento ele hesitava, oscilava e desviava a atenção. “Não é que eu não queira casar. Eu quero mas tem tanta coisa pra acontecer ainda. A Priscilla precisa fazer uma pós, eu preciso de um emprego melhor, ganhar mais… Tenho que comprar um carro, uma casa…” Paulo pensava e planejava tudo como deveria ser – não podia ser assim: de uma hora para outra. Priscilla era mais emotiva e achava que os dois juntos poderiam conseguir seus objetivos.

Mesmo assim, Priscilla era paciente e aceitava o medo – a forma como Paca fazia seus ideais. Até o noivado, quando decidiu que já estava na hora. De fato, Paca nunca teve um emprego tão estável e rentável quanto seu último emprego. Quando Priscilla se tornou responsável pelo departamento no Arquivo do Estado, Paca já estava na atual empresa e ambos ganhavam relativamente bem. Nesta hora Priscilla incendiou-se com uma sensação de que talvez agora, as coisas caminhariam rumo ao tão esperado casamento. Depois de tantos anos de namoro, as famílias já faziam piadas e os amigos diziam que “Paca e Prica” fariam bodas de prata no namoro. Isso já incomodava a moça que não aceitava mais as desculpas de Paulo. Já estava na hora, era isso que eles queriam. Por que adiar um inevitável casamento?

Combinaram juntos de fazer o consórcio de um carro e assim o fizeram. Este foi o investimento mais alto que os dois planejaram juntos. Para Priscilla, tudo corria bem, mas na visão do racional Paca, aquele ainda não era o momento. Ele era supervisor de Help-Desk. Não ganhava o suficiente para sustentar um lar. Por mais que eles estivessem melhores, ainda não era a hora. Ele tinha de investir, tentar algo melhor e quando tudo estivesse acertado, poderia se casar e ter uma vida digna. Paca decidiu investir em um apartamento pequeno. Com um pequeno montante que acumulara em seus fundos de aplicações. Julgou ser um investimento com bom retorno. Comprou na planta, mas não contou para ninguém. Era um investimento – não uma casa para morar, casar, ter filhos – aquilo era uma coisa sua.

Algo saiu muito errado em suas pretensões quando Priscilla encontrou os documentos da compra em cima de sua escrivaninha. Foi atordoante e, de certa forma, teatral. Priscilla era explosiva e aquilo lhe soava como a mais profunda traição. Neste instante ela notou que seu amado Paca não lhe colocava em primeiro plano. Considerou-o egoísta. Excluí-la de seus planos futuros era como não querer que ela fizesse parte deles. Para Paca, não deveria ser assim, era um imóvel, uma coisa, tijolos, nada mais. Para Priscilla foi o estopim. Considerando Paca extremamente egoísta não lhe perdoou. Mesmo após insistentes pedidos de perdão, Paulo até tentou vender o apartamento, mas Priscilla estava ferida.

Nesta fase Antônio foi fundamental para tentar apaziguar as coisas – mesmo não sendo possível. Paca pediu perdão mas não aceitava o ponto de vista de Priscilla, que estava irredutível. Antônio tentou expressar o ponto de vista de seu amigo mas a ferida causada pela atitude de Paulo não lhe permitia.

Absorto nas lembranças e no trauma do recém acontecido, Paulo não percebe quando o guincho se aproxima.

- Vamos garoto? Convida um sorridente motorista.

Em Campinas, Paca prefere um posto de gasolina, onde aproveitaria para comer algo. Um Self Service judiado pela hora avançada – quase não havia mais carne na panela. Alguns pedaços de abóbora com arroz, um suco de acerola e nada mais.

Como vou explicar isso para a Priscilla? Precisava tanto do apoio dela nesta situação e eu apronto essa! Parecia um bicho, parecia um bicho na estrada! Eu tive que desviar, foi o reflexo! Como posso ter tanto azar de uma vez só? Existe inferno astral? O que será que ela descobriu naquela data com o nome da Miyetta?

– E aí meu caro Paca… que confusão você me arrumou hein?

Uma hora se passou rápido, já estava escurecendo quando Antônio chegou.

2 comments

  1. Já estou preso ao enredo, e me deixando levar por teorias conspiratórias!


  2. E a história se repete, namorada quer compromisso, namorado quer tudo, MENOS compromisso… e agora ele me bate o carro dela… tá ferrado, ainda bem que existem “Antônios” em nossas vidas… o Paca vai sair dessa, estou torcendo muito!



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