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A cruz branca

Janeiro 23, 2008

Sem comer, dormir ou descansar, Paca seguiu rumo à uma São Paulo distorcida. Já não tinha mais noção do que estava acontecendo, não pensava ordenadamente, nem se deu conta que poderia perguntar aos vizinhos, aos amigos… nada, apenas entrou no carro, deu a partida e foi-se. Seu apartamento já não era seu forte seguro, para onde iria? Flashs desorientados brilhavam como uma luz strobus.

A longa viagem era o cenário ideal para seus incansáveis questionamentos, não havia luz de entendimento que cintilasse em sua cabeça, mas ele era convidado a pensar. A estrada ainda no início revela uma paisagem quente e vazia. Gaviões caracarás à beira do asfalto vasculham a carcaça de um tatu atropelado. Laranjais, canaviais, eucaliptos, cafezais, uma cidadezinha. Parou na estrada, o sol lhe deu sede, à frente uma cruz de algum atropelado.

Não posso entender o que acontece aqui, mas é fato, preciso agir, preciso pensar.

Juntou os papeis no banco do passageiro. De repente uma colossal e gritante semelhança lhe saltou aos olhos.

Veja, o papel da carta é o mesmo papel reciclado do número do telefone escrito por minha mãe. Ora… mas quem disse que minha mãe escreveu este papel? Ele estava jogado no chão, por certo alguém pulou o muro e colocou debaixo da porta! Sim. Esta mesma pessoa escreveu a carta e enviou para mim, daqui de Franca, para que parecesse meus pais. Evidentemente não foi meu pai e minha mãe. As letras não coincidem… e este papel não é comum… vejam as fibras são idênticas! Ok, a carta tem muitos enigmas. Porque alguém mandaria enigmas para mim? Não sei. Não é possível que isto esteja acontecendo comigo, virei detetive agora? Calma Paca.. concentre-se. Tem algo para você aí. Vamos lá, a carta me disse para prestar atenção aos detalhes, tem algo com estas letras que me intrigam, mas ainda não sei exato o que. O nome… Myetta Schreier, não tem ninguém famoso.. o sobrenome é bem comum, judeu ou alemão…alemão ou judeu … ou os dois. A frase … “verdade pode não ser” como assim? a minha verdade? qual é a minha verdade? minha vida? minha vida pode não ser? Neste ponto o infeliz me diz que talvez esse nome saiba algo sobre minha vida que eu não sei. Mas eu sei tudo sobre minha vida. O que é minha vida? Meu trabalho, a Pri, meus pais… sim, meus pais são minha verdade. Seria esta mulher minha verdadeira mãe? que besteira Paca, você viu fotos de sua mãe grávida e você tem todas as características físicas dos dois… até o tipo sanguíneo. Mas que verdade não pode ser? E esse telefone… qual é mesmo? 2904-1969. Não é de São Paulo, nem de Mossoró, nem de Franca nem de cidade alguma que eu saiba. Não tem um nome… é um número apenas .. 2904 menos 1969 é igual a … 935. Grande coisa… não é um número de telefone, não é uma conta…

Olha para frente e vê aquela cruz branca. Mórbida. Algumas flores amarelas brotaram donde antes deviam ter flores de condolências. O mato mais abaixo cobria parcialmente uma placa de madeira pintada com a inscrição, “Cristiano Pereira Filho 10/02/1966 – 22/11/1998″

ISSO! Uma data! Sim… é uma data. 29/04/1969.

Pega o celular, Chamadas Recebidas, Priscilla, Rediscar, Chamando…

- Pri, tenho uma data!

- Sério? como?

- Achei escrito num papel na casa deles. Tem alguém me dando pistas. Só pode ser isso. anota aí, 29/04/1969.

- Tá vou pesquisar.

- Mais uma coisa. O celular que te mandou a mensagem… era de Franca?

- Não sei, deixa-me ver… tuuuu … tuuu . tuuu – alguns segundos de silêncio – Alo?

- Oi! Estou aqui!

- Não Paca, era de São Paulo mesmo! Como não vi isso antes?

- Sabia… estou na estrada. Levo o carro para você assim que chegar.

- Vem com calma. Você está muito nervoso esses dias.

- Tá. Me sinto como um rato num labirinto. Meus pais não fariam isso, alguém os seqüestrou. Mas quem seqüestraria um senhor e uma senhora sem bem algum?

- Talvez eles queiram você!

- Eu? Quem sou eu? Não… se fosse isso me pegariam de outra forma, pra quê tudo isso? Não faz sentido.

- Paca, tenho que desligar, tome cuidado na estrada.

- Tá bom Pri.

- Tchau..

- Tchau…. Te am…

Um silêncio ecoou antes do bipe do telefone, Paulo estava visivelmente transtornado e animado por isto tudo ter reanimado o contato entre ele e Priscilla. O carro de Priscilla estava limpo e cheiroso como quando o comprara. Um coração de veludo vermelho pendurado no retrovisor dizia “Eu te amo”. Foi um presente especial, no primeiro ano de namoro. Paca começa olhar os pertences de Priscilla tão cuidadosamente arrumados no carro. Um porta CDs em forma de estrela, um batom, uma manteiga de cacau, ela era viciada nisso, todo dia de manhã e a noite passava manteiga de cacau. Dois ou três amarradores de cabelo. Paulo podia sentir seu perfume, a textura de seu cabelo negro. Pôde sentir seu rosto robusto e vermelho encostando-se a seu peito. Priscilla tinha baixa estatura e grande personalidade. Paca abre a caixa de CDs. Por um instante esqueceu-se de seus pais, das mensagens secretas, das impressoras e dos boletos de seu apartamento. Dentre os CDs encontra um CD branco, gravado, escrito apenas “Nós Dois”. Paulo havia gravado aquele CD com as músicas que ela mais gostava. Colocou-o no toca CDs e mudou para a faixa 8. A música era “Good Times” de Eddie Brickel, uma cantora britânica que quanse ninguém conhecia, mas eles adoravam esta música. Ouvir aquele som novamente o levou para longe. Reviu a cena do seu primeiro beijo, o primeiro ano, a primeira vez, os sonhos, os gostos… Quando Paulo recobra a visão um saco de lixo preto voa em sua direção, com um reflexo assustado vira o volante com grande força para sua esquerda desviando-se do que imaginava ser algum bicho na estrada. O acostamento desnivelado revela grande instabilidade e deixa o carro desgovernado. Por alguns milésimos de segundos Paulo chega a pensar em Deus. Marcas de pneu ficam para trás, poeira no céu, mato estalando, uma placa de curva no acostamento. Sua visão escurece novamente.

2 comments

  1. Uauh! Não machuque o moço, hein? Ele é boa gente (rsrs).


  2. quero saber tudo depois eu falo



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