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Um padrão?

Janeiro 21, 2008

Os poucos estacionamentos do centro de Franca não eram lá tão bem-cuidados mas pelo menos eram baratos. Paulo saiu feito um furacão do estacionamento e foi direto para um cyber café que ele conhecia bem.

- Oi Adriano, preciso de sua ajuda: você tem visto minha mãe por aqui estes dias?

O coitado do Adriano mau pôde responder com um “boa tarde”.

Desde os tempos que Dona Ana aprendeu computação na comunidade do bairro, acabava preferindo usar o computador com outras pessoas por perto. Sentia mais segurança e podia sempre tirar uma dúvida ou outra com alguém. Adriano, dono do cyber café e sempre muito simpático, era uma das pessoas que mais ajudava Dona Ana. Ela havia feito questão de apresentar o filho no passado e Adriano ainda lembrava da sua apresentação singela: “Seu Adriano, este aqui é meu filho Paulo. Este garoto é muito esperto e tem muito futuro.”

- Fazem alguns dias que ela não vem aqui. Por quê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou Adriano visivelmente preocupado. Ele gostava da alegria de Dona Ana e as tardes que ela passava lá eram geralmente muito prazerosas.

- Você não lembra exatamente o dia?

- Não exatamente. Mas você deve se lembrar porque ela ficou um bom tempo no fim da tarde falando com você. Na saída até perguntei como você estava para ela.

Paulo recordava sim: tinha sido na semana anterior. De lá para cá muita coisa poderia ter mudado.

- Posso usar uma das estações? – perguntou Paulo num turbilhão.

- Claro! Estação 5.

Paulo pesquisou na Internet pelo nome que sua mãe havia enviado para o celular de Priscilla: “Myetta Schreier”. Não encontrou nada. Colocou apenas o sobrenome “Schreider” para ver se encontrava alguma coisa sobre a família. Nada muito esclarecedor infelizmente: um maestro famoso na Alemanha, um matemático em Israel, várias outras referências não muito claras… Paulo surfava procurando uma pista, alguma coisa, qualquer coisa!

Até que algo lhe chamou a atenção: havia um certo padrão no conteúdo sobre “Schreider”. Parecia ser algum nome Judeu ou Alemão e se misturava constantemente nestes dois contextos.

Esta descoberta deu uma injeção de ânimo em Paca. Embora fosse uma pista muito superficial era talvez a primeira coisa que começava a fazer sentido nessa confusão toda. Paulo se lembrou do pai em sua alfaiataria e dos muitos clientes que recebia diariamente. Seu Amarildo era um alfaiate de primeira e caiu nas graças de toda espécie de gente graúda da cidade de São Paulo. Muitos imigrantes emergentes faziam e consertavam seus ternos, calças e camisas com Seu Amarildo.

Seu sucesso só não era patente com os descendentes e imigrantes Italianos que preferiam usar os serviços de conterrâneos. Paulo sempre se divertia com o pai imitando humoradamente o sotaque e os trejeitos daqueles imigrantes Italianos que garantiam que não haviam alfaiates melhores do que os de Nápoli, Trento ou algum outro lugar.

Imigrantes e descendentes Judeus, Alemães e até eventualmente Franceses visitavam a alfaiataria com frequência. Seu Amarildo, homem trabalhador e inteligente que sempre foi, até aprendeu algumas poucas frases de efeito em Hebraico, Alemão e até Ídiche para agradar a clientela. Funcionava.

O telefone de Paulo toca. No visor: Priscilla. Paulo estava tão absorto que tinha até esquecido que ainda precisaria devolver o carro para ela lá em São Paulo. Fora o fato que estava há, no mínimo, 6 horas de lá.

- Oi Pri.

- Oi Paca. Como está? Encontrou seus pais?

A pergunta caiu como uma alfinetada no coração de Paulo. Era difícil explicar o sentimento de frustração que tomava conta dele. Ele sentia como se o mundo estivesse fora do seu alcance e, mesmo que se esforçasse, talvez nunca chegasse efetivamente a descobrir por si só o que acontecia com seus pais.

- Infelizmente não. Eles não estavam em casa. Parei aqui no cyber café para pesquisar um pouco sobre aquela “Myetta Schreier” mas só encontrei que o nome é Alemão ou Judeu.

- Eu também poderia pesquisar aqui no arquivo se há alguma coisa. O problema é que sua mãe precisaria ter me dado alguma data – boa parte do arquivo ainda não foi digitalizada e a procura por esse nome no sistema não trouxe nada. Eu tentei no próprio dia que ela enviou.

- Vou pensar em alguma coisa. Preciso descobrir o que está acontecendo. Eles eram a única coisa que eu tinha…

- Não Paca! Você tem muito mais…

Por um instante Paulo notou nas palavras que ele mesmo havia usado na sua última frase. Ele já considerava os pais como passado: algo que ele tinha e não tem mais. Seria isso já o seu próprio subconsciente tentando convencê-lo que os pais teriam sumido de uma vez por todas? Paulo nem tinha ouvido as últimas palavras de Priscilla.

- Paca? Paca? Você está aí?

- Sim… sim… estou saindo de Franca. Quando estiver entrando em São Paulo te ligo para devolver o carro.

Se despediram e Paulo partiu de volta. Sabia que seria uma longa e meditativa viagem.

Esse sentimento de impotência perante a situação me corrói! Minha vontade era ter algum controle sobre essa confusão toda. Queria saber onde meus pais estão e se estão bem ou pelo menos poder ajudá-los se estiverem em algum apuro. E que apuro seria esse que eles se meteram? Por que nunca me contaram? Será que foi algo que aconteceu quando meu pai atendia aos imigrantes? Myetta Schreier poderia ser alguma cliente… Mas eu me lembraria: meu pai atendia mulheres muito raramente e talvez nunca tenha atendido uma imigrante. Tantas coisas que eu queria resolver…

One comment

  1. Hum… a coisa está esquentando… serão os nazis??? Oh heavens, I hope not!!



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