
Reviravolta
Janeiro 20, 2008A casa de Seu Amarildo e Dona Ana Clara era simples e pequena. Ficava localizada num bairro no sudeste de Franca próximo ao Aeroporto da cidade. A rua tinha sido recapiada recentemente e até destoava com algumas casas que careciam de um cuidado mais detalhado. Paulo gostava do terreno e da construção da casa de seus pais. Construída há muitos anos, tinha sido colocada bem no centro do terreno deixando um grande espaço tanto nos fundos quanto na frente.
Seu pai, depois de aposentado, desenvolveu esse gosto por cuidar da casa. Mantinha a pintura sempre impecável e transformou tanto a frente quanto os fundos em belos jardins aproveitando para podar e cuidar de algumas árvores que, em tempos passados, mais pareciam vindas de um cemitério. A pequena horta que passou a manter também lhe dava muitas horas de prazer e dava o orgulho de colocar algo à mesa que houvesse saído de suas mãos. Paulo via um pouco daquele alfaiate excepcional que seu pai havia sido naquele pequeno ato de trazer uma beterraba à mesa.
Hoje a casa estava silenciosa e, para ser bem sincero, Paulo sentia que até a vizinhança estava silenciosa demais. Paulo conseguia ouvir até os batimentos do seu coração.
Sacou a cópia da chave que seus pais haviam lhe dado e abriu a porta da frente. Um pedaço de papel estava no chão imediatamente na frente da porta como que convidando qualquer um que entrasse a pegá-lo. Paulo abaixou-se, pegou e leu: “2904-1969″.
“Certamente algum telefone que minha mãe anotou e caiu no chão com o vento.” – pensou Paulo colocando o número de volta na mesinha da entrada de onde deveria ter caído.
- “Mãe! Pai! Vim visitá-los!” – gritou Paulo um punhado de vezes enquanto ia entrando pela casa.
Não foram precisos mais do que alguns minutos para Paulo se certificar que não havia ninguém na casa. Foi à cozinha, aos quartos, ao jardim dos fundos e até ao banheiro mas nada. Tudo estava silencioso demais.
Paulo sentiu o peso da solidão bater assustadoramente nas suas costas. Largou o peso do corpo no sofá da sala com um olhar perdido e triste. Mesmo que fisicamente distantes, Paulo finalmente entendia que seus pais eram a única coisa que ele realmente tinha. Fora seus pais, a única coisa que conseguia lembrar era a dívida gigantesca de um apartamento – algo que não gostaria nem de pensar.
Entrou num ciclo de questionamentos mentais que demorou vários minutos: “E se realmente alguma coisa de ruim aconteceu com eles? Será que eles foram sequestrados? Por que alguém sequestraria meus pais? E por que essa maldita carta que nem sei se foi meu pai mesmo que escreveu?”
Pensou em avisar a polícia mas não confiava nela e também tinha um grande problema: em tese seus pais o avisaram que estariam viajando por carta. O único que desconfiava da carta por questão da caligrafia estranha era Paulo.
Se ao menos Paulo tivesse guardado as cartas antigas do pai… por um instante Paulo amaldiçoou a si mesmo por ter jogado as cartas no lixo.
De repente um novo ânimo tomou conta de Paulo. Ele era um indivíduo inteligente e iria resolver isso sem deixar se abater. Levantou rapidamente em direção ao carro mas parou no caminho. Olhou novamente o número de telefone colocado na mesinha.
- 2904? De onde é este prefixo?
Sacou o celular do bolso e discou.
- O número discado não existe. Por favor tentar novamente.
Tentou novamente só para ter certeza e ouvir a mesma gravação. Tentou discar com prefixos de alguns estados que ele tinha de cabeça mas sempre ouvia a mesma mensagem.
Olhou o papel mais de perto e começou a pensar em voz alta:
- Por que minha mãe escreveria um número de telefone que não existe? Por que falta o nome do lugar ou da pessoa?
Por via das dúvidas, colocou o papel com o número no bolso e partiu para o carro. Ele tinha um destino certo.
—
Eu vou até o fundo disso. Conheço meus pais e alguma coisa está muito errada. Não vou ter uma postura passiva com relação a isso. Já perdi coisas demais por ter sido passivo na minha vida. Se eu perder meus pais por pura inatividade minha… não, não quero nem pensar nisso…
Vamos…estes capítulos estão muito pequenos para o tamanho da nossa curiosidade!!! Ta parecendo novela, quando está interessante o autor começa a rodopiar para nos prender!
AI MEU DEUS ONDE TA ESSA GENTE?