
Aquela semana
Janeiro 18, 2008Paulo acordou cedo. O sol ainda não tinha nem dado as caras. Claro que a noite mal-dormida nem podia ser considerada realmente uma noite de descanço. Enquanto tomava um café-da-manhã improvisado sentou para programar o dia.
Começou por tentar ligar para os pais pela milésima vez e verificar os e-mails. Em algum lugar lá no fundo ele ainda acreditava que poderia receber alguma notícia repentina dos pais. “Vai que eles resolveram ir para uma lua-de-mel e esqueceram de me avisar?” – pensava com os seus botões.
Ignorou os e-mails de propagandas mas não encontrou nada que sua mãe tivesse enviado. O único e-mail relativamente útil era o de Antônio, um dos poucos que Paca conseguia chamar de amigo. O e-mail dizia:
“Paca, rapaz,
Precisamos nos encontrar em breve. Estou cheio de novidades pra te contar. A promoção aqui saiu e agora vou poder trocar de carro. Falando nisso, você ainda nem conhece a Nildinha. Estamos nos dando muito bem. Acho que dessa vez é papo sério.
Fora isso o Miguel me ligou. Falou que precisa de uma força nossa. Parecia meio pra baixo. Vamos tentar nos encontrar este fim-de-semana, ok?
Outra coisa: quando você vai vir trabalhar aqui? Larga esse negócio de telemarketing rapaz!
Abração,
Antônio”
Paulo odiava quando resumiam o seu trabalho em “telemarketing” ou em “vendedor por telefone”. Toda vez ele tinha que explicar que na verdade realizava “suporte passivo” que é totalmente diferente se comparado a um trabalho de vendas ativas. De tanto cair nesse assunto Paulo até cansou de explicar e hoje apenas odeia essa simplificação exagerada. Pela sua atual baixa empolgação profissional, que chamassem aquilo como quizessem.
Antônio, Miguel e Paulo formavam desde a época da USP um grupinho até que bem entrosado. Se, na época, Paulo já os considerava amigos, atualmente eles poderiam ser considerados apenas os únicos. Mesmo que o caminho tomado por cada um dos três tivesse sido bem diferente, por alguma razão continuavam interligados em alguns assuntos, gostos e atividades. Raramente passavam-se mais de dois ou três meses sem que conseguissem abrir um espaço nas agendas para um encontro – mesmo que rápido.
Paulo decidiu que responderia o e-mail mais tarde – com calma. Sabia que problemas com Miguel eram sempre complicados. Ligou então para sua chefe Aline. Planejava explicar sua necessidade de perder o dia de trabalho sem que ela se intrometesse demais na sua vida:
- Bom dia Aline, tudo bem? Desculpe te incomodar no caminho para o escritório mas vou precisar faltar hoje.
- O que houve Paulo? Vai fazer entrevista de emprego no concorrente é?
Mau sabia ela que, se continuasse sendo tão irritante, este seria mais um motivo para procurar o concorrente.
- Não! Problemas pessoais. Vou precisar sair de São Paulo mas estou de volta amanhã. Ok?
- Ok Paulo. Mas nada de arranjar rabo-de-saia fora de São Paulo e depois ficar faltando para viajar toda seman…
- Eu sei, eu sei. Amanhã estou de volta. Bom dia! – e desligou sem dar muita atenção.
Essa mania hiper-protetora que alguns chefes assumiam preocupava Paulo. “Que direito minha chefe tem de dar pitacos sobre minha vida amorosa?” – pensava Paulo. Arrumar um “rabo-de-saia”, como Aline havia colocado, era a última coisa que passava na cabeça de Paulo agora. Nem Priscilla, o provável amor de sua vida, tinha lhe trazido muitas esperanças no dia anterior.
A viagem de cinco horas até Franca demoraria quase sete só pelo trânsito que Paulo sabia esperar naquele horário de rush matutino. Apressou-se para separar uns CDs, documentos, celular e carteira e cair na estrada.
O caminho para Franca sempre lhe foi bem agradável. Assim que saiu da Marginal Pinheiros e caiu na Trabalhadores pôde relaxar e apreciar o sol matutino que parece sempre mais bonito na estrada quando vai-se deixando São Paulo para trás. Paulo lembrou-se das várias vezes que fez esse mesmo caminho com Priscilla e sentiu aquela pontinha de saudade dos bons tempos.
Lembrou de certa vez que estavam os dois desempregados e sem dinheiro. Ajuntaram o pouco de dinheiro que tinham e alugaram um carro para ir para Franca e passar uma semana com seus pais. Paulo recordava até a época do ano: tinha sido a terceira semana de Setembro e nunca uma semana tinha sido tão ensolarada como aquela. Pelo menos ele não se recordava de ter aproveitado tanto nenhuma outra semana de sua vida.
Não foi só o clima que ajudou a marcar aquela semana. Na verdade todas as variáveis estavam a seu favor. Priscilla estava simplesmente fantástica: não só estava num esplendor de beleza ímpar como também estava tratando-o com tanto carinho e uma admiração tão singela e gostosa que Paulo nem conseguia acreditar.
Seus pais também foram fenomenais. Dona Ana preparava cafés-da-manhã que pareciam banquetes dignos dos maiores reis e rainhas. A prática continuava nas demais refeições. Paulo deve ter ganhado vários kilos naquela semana mas não se importava. Seu pai gastava horas na pequena horta nos jardins da casa e fazia longas ciestas naquelas tardes com um calorzinho agradável de primavera. Paulo lembrava-se de ele mesmo ter cestiado pelo menos um dia – às sombras de uma das árvores do jardim com Priscilla deitada ao seu lado.
Por uma semana, ele resolveu esquecer de tudo. Esqueceu dos seus anseios; esqueceu dos seus sonhos; esqueceu das suas frustrações. Durante aquela única semana, ele pôde relaxar e gozar de uma alegria especial. Talvez esta seja a maior razão da sua felicidade naquela semana.
Um buraco gigantesco na pista fez Paulo voltar à realidade. A realidade era dura principalmente se comparada com aquelas lembranças tão positivas. O pior era ele conseguir mensurar tão detalhadamente que os sonhos inalcançados da época eram praticamente os mesmos sonhos inalcançados de hoje. O que Paulo andava fazendo com sua vida?
—
Franca nunca me pareceu tão distante. Meu maior desejo é chegar lá, encontrar meus pais e viver como aquela distante semana de Setembro novamente: dormir sob a sombra da àrvore, o cheiro da grama fresca…
Estou amando… li tudo de uma sacada só… tem mais??? (rsrs)
ESTOU LOUCA PRA SABER O QUE ACONTECEU COM OS PAIS TA DEMORANDO MUITO VAMOS LÁ PACA FORÇA.