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Interrogações

Janeiro 17, 2008

Paulo não chegou a visitar o hospital, depois de um gole de água com açúcar e de comer um caldo de feijão que o Japonês gentilmente não cobrou, foi caminhando com dificuldades até o carro de Priscilla.

Sua mente não condizia com o seu corpo, estavam desconexos um do outro. A mente gritava “Ei, me ajude! O que você sabe que eu não sei? Cadê meus pais?…” mas o corpo sofria para mover um passo após o outro. Com dificuldades conseguiu falar no caminho até seu apartamento que Priscilla conhecia muito bem.

- M.. M.. Me conta.

- Calma Paulo, você está muito nervoso, nunca te vi assim!? Lá na sua casa agente conversa.

Subiram até o 6o. andar. Apartamentos mais baixos são mais baratos, Paulo queria no último andar, o décimo primeiro, mas era 25% mais caro e seu orçamento não podia arcar com as prestações. Ele adorava a varandinha, as janelas sem cortinas onde passava algumas horas refletindo e observando a vastidão da metrópole.

Haviam poucos móveis na sala, apenas um rack pequeno, uma televisão de 29 polegadas tela plana com um aparelho de DVD e o sofá de chinile preto.

- Quer ir ao hospital?

- Não, besteira! Já estou melhor… Fiquei o dia inteiro sem comer nada, deve ser por isso.

- Você está muito nervoso… aconteceu algo?

- Como assim? Você me procura depois de mais de um ano sumida, recebo uma carta estranha, fria, desconexa do meu pai dizendo que eles fugiram pra outro lugar, eu não acho eles em lugar nenhum e você me pergunta se aconteceu algo? Eu é que pergunto! O que você sabe deles que eu não sei?

- Você também não consegue falar com eles?

- Não.

- Que carta você recebeu?

- Fale você primeiro Pri… “tô” meio “zonzo” ainda.

- Semana passada dona Ana me ligou. Fazia tempo que não nos falávamos, mas ela parecia fria. Foi logo perguntando se eu ainda trabalhava no Arquivo. Disse que sim. Ela me perguntou se eu tinha acesso à documentos de heranças, homicídios, boletins de ocorrência de suicídios, etc. Eu disse que se fossem considerados históricos, provavelmente sim, mas se fossem casos rotineiros, estariam nas delegacias.

- Herança? Homicídios? Suicídios? De quem .. pra quê?

- Ela estava nervosa, eu perguntei porquê mas ela disse apenas que precisava muito da minha ajuda nisso e que não deveria lhe contar nada… nunca. Sendo assim, disse que mesmo não tendo acesso a tudo poderia tentar ajudá-la. Ela ficou de me passar os nomes das pessoas.

- Quais eram as pessoas?

- Inicialmente achei estranho, ela disse-me que não eram apenas nomes, mas depois percebi que era uma forma de protegerem-se de algo. Mas não me falou nada, disse que depois ligava.. Só agradeceu e pediu para não lhe falar nada novamente.

- Só isso?

- Isso ocorreu na semana passada. Depois de dois dias recebi esta mensagem no celular: “Myetta Schreier – verdade pode não ser”.

- Quê? Minha mãe mandou isso? Você “tá” de brincadeira! O que é isso agora? Pegadinha do Malandro? É o código Da-vinci? O que é isso, vocês só podem estar brincando comigo. – exaltou-se Paulo

- Calma Paca… eu também “tô” nervosa, o número não era da sua mãe, eu retornei para o número e ninguém atendia… Liguei em seguida para ela e nada.. depois para seu pai e nada… fiquei com aquilo na cabeça. No outro dia liguei de novo e de novo.. eles sumiram.

- Olha a carta que meu pai me mandou… – diz Paca negando com a cabeça

Agitado, confuso e irritado Paulo cruzou a pequena sala e em cima da mesa de vidro com 4 cadeiras pegou a carta, já amassada de tanto ser relida. Entregou-a para Priscilla sem lhe fitar nos olhos. Enquanto lia Paulo diz:

- Vamos chamar a polícia!

- Paca… Não temos nada para chamar a polícia. Temos que ir até a casa deles… Eu não posso ir para o interior hoje mas te empresto meu carro.

- Ainda não estou bem para dirigir até Franca, já são 12:41 AM… amanhã cedo pego a estrada.

Se despediram com um abraço dolorido. Ela lhe entregou as chaves, o documento e deixou o novo número de sua sala no trabalho. “Por isso não achava ela no serviço” – pensou.

Tentou ouvir música antes de adormecer… sua mente estava agitadíssima. Perturbava absurdamente não saber de algo.

Ele não utilizava de sua extrema inteligência para lucrar, para aparecer ou para qualquer outro fim mas quando havia uma dúvida do tamanho de uma poeira circundando sua cabeça, ele vasculhava bibliotecas, sites e conversava com especialistas a fim de encontrar uma resposta. Depois de encontrada, sua consciência aquietava e a tempestade de interrogações transformavam-se no mar de certezas que ele navegava com tranqüilidade e destreza. Era uma compulsão entender as coisas mesmo que quase nunca expunha suas minúcias intelectuais. Bastava a si próprio saber. E ele muito sabia.

Saindo de sua zona de conforto Paca estava alucinado. As pessoas mais respeitadas e carinhosas que ele conhecera em sua vida toda eram seus pais. Dona Ana, esposa dedicada e fiel. Seu Amarildo, homem de respeito e trabalhador. Ambos freqüentavam desde 1998 uma pequena comunidade evangélica chamada “Deus é bom”. Desde então seus pais tentavam “catequizar” Paulo como ele costumava brincar. Dizia “lá vem vocês dois com a schola legendi, scribendi et cantandi” quando seus pais davam sermões sobre sua incerteza no futuro ser apenas por conta de não conhecer o Deus que eles acreditavam.

Paulo não era ateu. Era católico daqueles que preferem não pensar no assunto. Após ler Richard Dawkins achou que ser ateu seria um estereótipo muito forte pois Dawkins depreciava tudo o que a religião oferecia e ignorava os incontestáveis benefícios que ela trazia. Preferia dizer que não tinha religião mas que não era ateu. Apesar de não entender os limiares de Deus-Religião-Crença-Fé e de discordar enfaticamente com o modelo “cathecumeni” que desbravadores como Padre Manuel da Nóbrega e outros jesuítas impuseram aos índios em São Vicente nos século XVI, este assunto já havia adormecido em sua ânsia por respostas.

Haviam extremos dos dois lados que ele não gostava de classificar. Fanáticos religiosos, ateus com argumentos infundados, a própria ciência que ele tanto gostava não resolvia tudo, então foi engessando suas dúvidas e deixou-as lá.

“Fantasmas do passado” como assim? Eu conheço todo o passado de meu pai, de minha mãe… ele sempre me contava tudo. Todo dia fazia questão de falar… “Lá no sertão de Mossoró a vida era dura, quando vim para São Paulo não tinha nada… fui engraxate e lutei, lutei até virar alfaiate…” O que tem de mais nisso tudo? “Ore a Deus”… O que será que meu pai quis dizer com isso? Ele sabe que não sei orar como eles… Por que tanto mistério? Parece coisa de novela, não é possível que seja verdade. Desde quando minha mãe fala em códigos? Desde quando eu não sei algo que eles não podem me contar? Que absurdo…

“Myetta Schreier” quem é essa mulher?. “Verdade pode não ser” – a verdade pode não ser o quê? Verdade? A verdade pode não ser a verdade? É isso? Fique atento. Fique atento. Fique aten…

2 comments

  1. ESTOU MUITO ATENTA ACHANDO MUITO BOA STA HISTORIA


  2. Desde o primeiro capitulo pensei:vou ler pra conhecer…e são duas da manhã e simplesmente não consigo parar.Ótimo!!!



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