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Cola Pritt?

Janeiro 16, 2008

- Oi, por acaso você tem cola Pritt?

Essa foi a primeira frase que Priscilla dirigiu ao tímido rapaz que sentava ao seu lado na turma do curso de história da USP dez anos atrás.

- O quê?

- Cola Pritt, aquela de tubinho!

- Há! Não… achei que o curso de colagem era na ECA, estou na sala errada? – brincou o rapaz.

- Não seu bobo, é que tenho que colar a foto da carteirinha de estudante. Prazer, meu nome é Priscilla.

- Prazer, Paulo.

Iniciou-se aí uma amizade forte. Paulo não sabia porque estava no curso de história. Talvez pela sua modéstia tenha calculado que fosse o curso mais fácil de entrar na USP. Obviamente que ele passou com folga em 6o. lugar dos quase 10.000 inscritos. Os cursos de robótica, informática, administração e marketing estavam em alta. Paulo se encaixaria em qualquer um deles mas preferiu história.

Priscilla era estagiária do Arquivo do Estado na rua Voluntários da Pátria. O arquivo do Estado de São Paulo tem a função de recolher, tratar e disponibilizar ao público todo o material de caráter histórico produzido pelo poder executivo paulista. Priscilla scaneava documentos e guardava-os novamente o dia inteiro. Mas aprendeu a ler e se interessar pelos documentos e as histórias contidas neles. Bem-humorada e extrovertida, Priscilla contrastava com o contido Paca e arrancava-lhe tímidos sorrisos sem ele saber porquê. Eram as fagulhas da paixão que incineravam o gélido Paulo que até então não havia experimentado um sentimento real.

Um ano de amizade se arrastou até o inevitável. Era uma tarde de sol no campus da USP. Cambacicas e sanhaços azuis disputavam uma poça d’água formada pela chuva da noite anterior. Apesar do sol, a sombra de uma grande árvore oferecia um vento úmido e reconfortante. Paulo estava nervoso pois marcara um encontro com Priscilla para lhe dizer que não poderia continuar o curso, ele teria de trabalhar em período integral e ajudar no orçamento familiar. Infelizmente, a grade de matérias da faculdade não permitia a conciliação das duas atividades mas, mesmo não estando na faculdade, Paulo sentia que precisava continuar encontrando Priscilla. Para a maioria das pessoas desistir de um curso na USP era uma coisa ruim mas Paulo havia passado quando era “treineiro” dois anos antes e novamente quando ingressou no curso. Sua única preocupação era perder Priscilla.

Quando Priscilla despontou na esquina carregando sua pesada mochila cheia de livros e anotações Paulo começou a suar. Seus pés agitavam-se descontrolada e involuntariamente. “Pare de mexer os pés, pare de mexer os pés, fica calmo Paca… fica calma Paca…” Mesmo assim ele não conseguia controlá-los. Ela vestia um vestido preto e uma sandália rasteira de pedrinhas que ele havia dado em seu último aniversário. Foi estranho, eles não se cumprimentaram, ela se aproximou, trançou os braços em seu pescoço e disse.

- Já passou da hora de você me beijar Paca. As pessoas desse campus transam umas com as outras como se fossem chimpanzés e você com esse pudor adolescente pra dizer que me ama? Lembre-se que sou mais velha que você. Larga logo essa timidez e me beija. Não é pra isso que você me chamou hoje?

- É… eu te amo. Desculpe a demora, mas não compreendo bem esse sentimento.

- Tão inteligente mas tão tolinho.

Foi um beijo calmo. Paulo já havia “ficado” com algumas garotas arranjadas pelos amigos na rua e na escola mas tratava aquilo como diversão. Depois das experiências adolescentes ele havia eliminado essa parte do cérebro. Não que não se interessasse, mas não buscava. Apenas deixou o tempo passar e perdeu a prática.

Foram 6 anos de namoro e 2 de noivado. Priscilinha, como a mãe de Paulo carinhosamente a chamava, foi incluída na família sem muita demora. Muitas vezes levava lições de moral de seu Amarildo e dona Ana Clara como se fosse uma filha mesmo.

Muito tempo havia se passado desde aquela bela tarde no campus da USP. Já eram 19:11 e Priscilla ainda não chegara.

Paulo passou o dia inteiro discando para seus pais. Também mandou e-mails para sua mãe. Ele estava preocupado demais para notar o atraso de Priscilla. Até mesmo a excitação do reencontro com seu amor não lhe animavam.

“Não é possível que meu pai escreveu aquilo. Deve ser alguma piada. Ficar atento… atento a que? Sou detetive agora?” – pensava ele quando priscilla enconstou a mão em seu ombro esquerdo.

- Oi Pri, estava distraído, não te vi chegar.

Um beijo frio e encabulado estalou no rosto dos dois.

- Oi Paca. Desculpe insistir em te ver hoje mas é que era importante.

-Você sumiu. Cansei de te procurar. Fui até na sua casa, falei com sua irmã mas você não estava lá. E também não quis sab…

- Paca, não vamos começar de novo querido. Você sabe muito bem porque eu sumi, porque estou triste e estranha com você… Você sabe. Nós não podemos ficar sempre neste ponto.

- Mas então o que me traz a bela desaparecida novamente?

- São seus pais.

Um frio aterrorizante subiu pela espinha de Paulo. Todos os pêlos de seu corpo ficaram arrepiados. Um suor gelado e grosso começou descer pela sua testa.

- Paulo? Paulo? Por favor me ajudem…

Sua visão escureceu.

Onde estou, este quarto, esta sala, não reconheço. Acho que é o escritório do restaurante… cadê a Pri… Só agora me dei conta que não almocei e nem comi nada o dia inteiro, deve ser por isso que desmaiei…. Não consigo mexer meu braço… ainda não estou totalmente consciente. Que vergonha. Meus pais! Sim… Meus Pais.. O que a Priscilla sabe sobre eles. Deve ser por isso que ela quis me ver hoje. Como eu faço pra acordar… Atento. Devo ficar atento. Priscillaaaaaa!

2 comments

  1. .. não tenho tempo para comebntários agora, estou muito ocupada lendo este capítulo


  2. muito curiosa



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