
A carta
Janeiro 16, 2008O relógio na parede marcava pouco mais de meio-dia. O restaurante estava lotado – mais do que Paulo gostaria que estivesse. Sempre preferiu ficar mais reservado e hoje definitivamente não era o melhor dia para estar cercado de pessoas ou, pior ainda, ter que dividir a mesa com algum estranho. “Mania estranha esta” – pensava com seus botões.
Enquanto comia aproveitou para ler a carta do pai. Tinha certeza que aquilo lhe traria alguma alegria neste dia. As histórias de seu pai sempre lhe traziam aquele sentimento nostálgico de uma infância sadia e feliz.
Antes de abrir o envelope algo lhe chamou a atenção: a caligrafia estava diferente da que o seu pai normalmente utilizava. Verificou novamente o remetente e o destinatário para saber se não havia recebido alguma correspondência errada. Estava tudo correto: seu nome, seu endereço, o nome do seu pai e seu endereço.
A única coisa definitivamente errada era a caligrafia. Paulo esperava a letra firme e cuidadosa vindas das mãos precisas do velho Seu Amarildo que, de alfaiate dedicado, transferia a precisão do ofício para sua caligrafia precisa e especial mas, muito pelo contrário, aquele remetente não tinha em nada a caligrafia de seu pai.
Paulo apressou-se em abrir o envolope com uma insegurança que não gostava de sentir. A carta em todo seu texto apresentava a mesma caligrafia incerta do envelope e ainda trazia algumas tendências esquisitas e muito suspeitas.
Sentiu um frio subindo-lhe a espinha. Algo estava muito errado aqui. A carta dizia:
“Paca, meu querido,
É com muita tristeza que lhe escrevo estas poucas linhas. Preferiria que as coisas tivessem tomado outro rumo mas nem sempre os eventos seguem conforme planejamos. De certa forma, eles seguiam o rumo certo até pouco tempo atrás.
Gostaria de ter a oportunidade de explicar minhas decisões e principalmente motivações mas forças maiores me impedem. Só posso orar para que Deus permita que nos reencontremos em breve e que eu tenha a chance de clarear os fatos para você.
Por enquanto posso apenas revelar que eu e sua mãe estamos nos mudando. Não posso dizer para onde, quando e muito menos o porquê. Não se preocupe em nos procurar: quando receber esta correspondência já estaremos bem longe daqui.
Não espere correspondências nossas e não fale para ninguém sobre esta situação. Existem alguns fantasmas do passado que precisam ser exterminados e espero sinceramente que você entenda isso.
Mil perdões pelo modo grosseiro e repentino de lhe trazer essa notícia. Queria muito poder explicar melhor mas sei que você estará atento para procurar e entender os motivos que nos levaram a isso. Esteja atento. É o que lhe peço com todas as minhas forças.
Papai”
Paulo olhou para a carta, depois para sua comida e então para as pessoas. “O que está acontecendo? Por que não me avisaram sobre isto antes? Por que razão estão fazendo uma loucura dessas?”
Ele não conseguia entender o conteúdo da carta. Seu pai não lhe escreveria aquelas palavras. Ele era um contador nato de histórias e gostava de enovelar suas narrações com começo, meio e fim – prendendo o espectador de ponta à ponta. Aquela carta estava muito mal contada. Não fazia sentido. Não era seu pai.
Não entendia também o formato. Aquela caligrafia não só era totalmente estranha a do seu pai como também uma tendência irritante de alternar maiúsculas e minúsculas no meio das palavras como adolescentes fazem na internet não era normal. Seu pai não faria algo assim.
- O que está acontecendo? – pensou em voz alta enquanto procurava o celular no bolso para ligar para os pais.
Não precisou cutacar muito os bolsos e o celular já deu sua graça ao receber uma ligação e tocar estridentemente. O visor indicou alguém muito inesperado: Priscilla. Por tantos anos Priscilla aparecia com frequência no visor do aparelho e depois parou… sumiu.
Paulo e Priscilla haviam namorado e noivado mas tudo saiu errado depois de certo tempo.
- Mais essa agora! O que essa mulher quer comigo?… Alô.
- Oi… Paulo… tudo bem?
- Dezoito meses que você não retorna minhas ligações e agora me pergunta “tudo bem?”
- Eu preciso falar com você. Podemos nos ver hoje à noite?
- Não sei. Hoje não é um bom dia.
- Por favor…
Quando o assunto era sua vida amorosa, Paulo tinha coração mole. As coisas tinham parecido tão certas com Priscilla e de repente tudo foi destruído. Apenas ouvir aquela voz ao telefone já era suficiente para mudar o ritmo da batida do seu coração mesmo num dia ruim e confuso como este.
- Ok. Podemos nos encontrar sim. Só não tenho muito tempo. Pode ser um jantar no Japonês às 19:00?
- Combinado.
Tendo desligado o telefone com Priscilla, tentou o número de seus pais. Primeiro esperou tocar e tocar até a linha cair. Depois tentou de novo… e de novo… e de novo. Cada vez que tentava ficava mais ciente que algo muito estranho e desesperador acontecia.
Abandonou o restaurante. Seu prato cheio de comida ficou sobre a mesa. Praticamente intocado.
—
Que dia! O que acontece hoje? O que acontece com meus pais? De onde tiraram essa idéia maluca de me pregar peças? Já são grandinhos demais para inventar estórias. Ou será que algo realmente sério aconteceu? Como é que eu não sei de nada e por que tanto segredo? E essa Priscilla que volta a infernizar minha vida? Tantos meses e eu achava que finalmente estava pronto para tocar minha vida!
Uauh… olha o mistério pintando… agora não posso parar de ler… tenho que continuar!
gosto de suspense mas não exagerem meninos!!!!!!!