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Distração

Janeiro 15, 2008

De volta à sua estação, Paulo olhou no relógio: 11 horas e 12 minutos. Como todo dia ruim, este também se arrastava eternamente.

Ele precisava de alguma distração; precisava de algo que o levasse para longe daquela estação de trabalho. Com um olhar atento aos detalhes, Paulo olhou para as pessoas ao redor. Cada uma concentrada em suas estações de trabalho, absortas em atividades simples, repetitivas e, pior ainda, muitas vezes desnecessárias. Paulo sabia disso e já tinha repassado isso tantas vezes na sua cabeça que mau conseguia esconder seu desconforto muitas vezes.

Imediatamente na sua linha de visão Paulo conseguia ver uma fileira de cerca de 15 estações de trabalho. Todas ocupadas com profissionais tentando, à qualquer custo, alcançar as graças dos superiores para colher futuras e eventuais migalhas distribuídas em formato de promoções. Logo além deles a parede externa e totalmente em vidro transparente do edifício dava uma visão panorâmica da cidade de São Paulo. Não que a cidade toda pudesse ser vista naquele imenso vitral – São Paulo parece ser um universo sem fim – mas aquela paisagem o acalmava.

A neblina da manhã tinha aberto espaço para um sol tímido que brilhava muito fraco e fosco por trás da fumaça da poluição e do vidro fumê. Paulo entendia pouco de arte mas gostava muito de olhar por aquela parede translúcida. Para ele aquilo já era um obra de arte em si só. Impressionava que as paredes de um prédio comercial – aquelas mesmas que prendem seus ocupantes em ambientes opressores e regados a ar-condicionado – permitissem olhar para fora, para o mundo – onde a liberdade teoricamente existia. Tudo isso de uma forma panorâmica mas sem perder a sensação da pequenês que dá ao observar aquelas pessoas lá embaixo bem pequeninas disputando espaço com carros, motos e vendedores ambulantes numa versão sofisticada e cruel de um formigueiro moderno.

Paulo gostava de olhar por aquela parede.

- O que o senhor está fazendo fora da sua estação de trabalho? – surpreendeu-o Aline Bastos, sua gerente, com um tom prepotente e altamente irritante.

Na verdade Paulo nem tinha percebido que não estava em sua mesa de trabalho. A viagem mental que estava fazendo tinha levado-o para tão longe que poderia jurar que ainda estava sentado na frente do seu computador.

- Estou indo almoçar – respondeu Paulo tentando não hesitar muito.

- Já está na hora do seu turno de almoço por acaso?

“Essa história novamente?” – pensou Paulo. O horário de almoço sempre foi um problema e uma batalha nos ambientes de atendimento. Por alguma razão os clientes assumem que podem ligar a hora que quiserem para resolver algum problema mesmo que seja a hora do almoço. Para resolver isso as empresas de atendimento inventaram os turnos de almoço: alguns atendentes saem para almoçar as 10:30 e os turnos vão alternando de 30 em 30 minutos até a 13:30. Mesmo depois de anos como supervisor e teoricamente isento desta babaquice ainda o obrigavam a manter uma rotina desnecessária e, por muitas vezes, até humilhante.

- Sim! Claro! Meu turno: óbvio – ele esperava que, quanto mais firme fosse, menores as chances de ela ir verificar no quadro. Nem ele mesmo sabia ao certo qual era o horário do seu almoço e há meses que já tinha acordado com o seu time que ele faria o horário mais conveniente para todos. Funcionava.

Passou rapidamente pela sua mesa e fuçou na mochila procurando a carteira. Esbarrou no envelope enviado pelo seu pai e resolvei trazê-lo para ler durante o almoço que teria sozinho mesmo.

Sou uma pessoa tão capaz, tão cheia de idéias e tão prática: por que não consigo simplesmente aplicar tudo isso e ser feliz? Por que é tão difícil fazer com que os outros muitas vezes percebam que estão enxergando o mundo como que por um funil? É como a parede de vidro do escritório: olhamos para o sol através da poluição e do vidro fumê. Aquele não é o sol de verdade – é só uma simplificação incompleta e feia do sol mas dia após dia todos aceitam isso como se fosse normal. Será que eu não sou normal?

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