
Aguarde um momento por favor
Janeiro 15, 2008Às oito horas e treze minutos Paulo bateu o cartão de ponto. Tudo estava igual. Experimente cruzar São Paulo da Zona Leste até a Zona Sul em uma quarta-feira chuvosa dentro de uma lotação e descobrirá o que é ser claustrofófico. O alívio em descer da lotação após quase duas horas em pé é algo reconfortante que só se desmancha depois do primeiro gole do café insosso da recepção. O prédio comercial onde Paulo trabalha traz o letreiro “Office Center Mega Hall”. Paulo sempre questionava que deveria ser “Mega Hall – Office Center” mas não fazia diferença, brasileiros adoram escrever inglês errado. Seu conhecimento em inglês foi um dos motivos da inclusão neste emprego. Ajudava a entender os manuais das impressoras. Ironicamente sua promoção veio não pelo inglês, mas pelo português bem falado. Inicialmente contratado como atendente de telemarketing, Paulo aboliu todos os gerúndios de seus scripts, reformulou os textos da base de conhecimento de seus clientes e de tão enxuto, foi adotado como base oficial. Em pouco tempo, visto por uma eficiente e capitalista gerente, foi promovido à supervisor do call-center.
- Oi Paulo, ainda bem que você chegou, a impressora laser da prefeitura de Botucatu pifou. Temos que mandar uma “becápi” urgente.
- Você já pediu para eles olharem o cabo de força ou o estabilizador?
- Sim, eles inclusive disseram que o estabilizador foi trocado.
- Então é isso, estabilizadores convencionais não aguentam aquela impressora, tem que ser um mais potente. Veja no manual quantos KVA ela precisa e quantos KVA tem o estabilizador novo.
- Ok, vou checar.
Hoje, Paulo coordena uma equipe de 20 atendentes que dão suporte para empresas que fazem terceirização do serviço de impressão. “Uma empresa contrata outra empresa que instala as impressoras na primeira que contrata a minha empresa para ensinar as toupeiras que vão imprimir suas coisas pessoais a usarem as impressoras novas e cheias de botões que chegaram. Eu ensino as toupeirinhas que estão do outro lado da linha a ensinarem as outras e assim, todos ficam felizes”. Era assim que Paulo ironicamente explicava sua profissão ao seus poucos e seletos amigos.
De repente, já eram 11 horas da manhã.
Aquele não era um bom dia, constantemente estava com o pensamento flutuando e não ouvia o que sua equipe lhe perguntava. Ele conhecia estes sintomas. Era quando a rotina e o desgosto pelo que via ao redor começavam a corroer sua mente. Uma marretada constante em sua mente dizia, “pra quê isso?”, “por que aquilo?”, “medíocre!”, “quem é você?” em breve ele começaria a ficar calado, faria coisas que impedissem sua mente de trabalhar, como jogar jogos eletrônicos, fazer Sodoku, ler livros de difícil compreensão, jogar RPG com antigos amigos e a inevitável fuga desesperada. Ele pediria as contas mais uma vez e enganaria-se com o pretexto de um novo emprego onde pudesse utilizar todo seu potencial. Balela! Paulo tinha inúmeras idéias para melhoria dos sistemas, para agilizar o atendimento, reduzir custos e pessoal, mas em raras situações chegou a comentar com alguém ou propor de fato. Mantinha todas na “casca” e nunca as revelava. Uma angústia apoderava-se de seu peito inflamando uma incontrolável vontade de correr, gritar. Paulo olhava ao redor sem enxergar os demais colegas, procurava algo que não existia.
- Vou ao banheiro.
Tranca a porta e encosta a cabeça por cima do vaso sanitário.
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Preciso de ar. Preciso sair daqui. Não aguento mais… o que vou fazer? Nada muda; tudo sempre igual, essa inércia constante me afunda, não quero o poço, mas sempre chego lá. Tá bom, sou supervisor, sou inteligente, comprei um apartamento, mas me difundo na massa cinzenta desse colossal município. Que droga! Por que as coisas não poderiam ser diferentes? Vou lavar o rosto, respirar fundo e voltar a ensinar pessoas a colocarem papel na impressora. É isso que devo fazer. Droga, droga, droga…
coitado!!!!!!!!tão inteigente…….