
Cinza
Janeiro 14, 2008- “Nightshift” dos Commodores.
Todos os dias eram assim. Um som baixinho ia incomodando até tornar-se em melodia reconhecível, após identificar a música, e quase sempre ele as conhecia, Paulo desinteressadamente desligava o despertador. Uma mancha borrada em vermelho revelava que já eram 6:15. A longa letra da música o entreteu e preciosos minutos a mais na cama poderiam significar grande espera no ponto de ônibus. Tedioso pela rotina Paulo arrasta o passo até o banheiro, não era preguiça, era tédio. Após enxaguar os olhos e recobrar a visão o espelho lhe revelou um fio de cabelo branco.
- Calvo e de cabelo branco – Murmurou com desdem.
Paulo Cardozo tinha apenas 33 anos, mas desde cedo apresentou sinais de calvíce herdados de seu pai, Amarildo, um potiguar da cidade de Mossoró. Na década de 60 seu pai veio do nordeste para tentar a vida na cidade grande. Muito trabalho e suor fizeram de Amarildo Cardozo um típico personagem paulistano. Passou de engraxate a alfaiate e hoje, aposentado, morava no interior de São Paulo com Ana Clara, paulistana que conheceu nos primeiros meses de seu êxodo, sua única esposa e mãe de Paulo. A história de vitória de seu pai foi recontada inúmeras vezes para o garoto Paca, como seu pai o chamava. Mas a cidade de concreto solidificou as esperanças de Paca, e hoje ele não acreditava mais em ficar rico ou tentar outras coisas para “vencer”. Racional, discutia até mesmo o significado da palavra vencer e classificava de medíocre muito das ambições modernas.
Paulo não ligava muito para aparência, era um homem compenetrado, nem sisudo, nem risonho, mas sério, observador. Já na adolescência percebeu que seu humor era inteligente demais para a maioria de seus amigos, então, guardava os pensamentos na “casca” como ele mesmo gostava de falar. Em sua infância achava o ensino das escolas públicas paulistas extremamente fáceis, mas não gostava de se destacar no grupo. Certa vez, fizeram um teste de Q.I., o garoto com apenas 17 anos tirou 143 o que é considerado uma média para superdotados, mas para os amigos, disse ter tirado 115, média de alunos recém-ingressos na Universidade, o que já o colocou entre os mais inteligentes. Ele conhecia seu potencial mas por algum motivo não gostava de mostrá-lo. Esse desinteresse era o impulsor de suas má sucedidas investidas acadêmicas, profissionais e amorosas.
Diante daquele fio de cabelo branco lembrou de como sua ex-noiva se irritava quando encontrava um desses brotando em seu couro cabeludo. Onde será que ela está agora… Finalizou sua higiene e como um furacão se trocou e saiu. Tímido, Paca se esforçava para se relacionar com as pessoas.
- Olá Milton, seu time não tem jeito mesmo hein? – cumprimenta o porteiro.
- Olá senhor Paulo. Não é verdade! Ontém foi um deslize, mas esse menino novo é bom! Olha, tem uma carta de seu pai e um envelope do banco pra você, quer levar agora?
Voltou, pegou os envelopes e enfiou na mochila sem dar muita atenção.
- Obrigado. Estou atrasado. Fui!
Paulo sempre falava com seus pais por e-mail e por mensageiros eletrônicos, sua mãe havia estudado informática básica na associação do bairro e lhe fora muito útil para matar as saudades do filho quando se mudaram. Já seu pai, resistente à tecnologia, vez por outra, lhe escrevia algumas cartas.
O cenário era o mesmo de sempre. Cinza. São Paulo de manhã é sempre cinza. Apenas os grafites nos prédios coloriam o caminho até o ponto de ônibus. O típico sereno paulista recobria o céu causando uma sensação gelada mas o calor da lotação fariam Paulo transpirar antes mesmo de iniciar a rotina no trabalho. No ponto pensava que aquele fio de cabelo branco poderia ser o início da velhice. Pensava que talvez as duas faculdades inacabadas, as propostas de empregos recusadas, e o noivado mal resolvido teriam de ser revistos. Por um momento pensou também que talvez seu cabelo ficasse cinza como São Paulo, já que o cinza é a combinação do branco com o preto.
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Tudo parado, basta garoar e tudo pára. Semáforos piscando. CEETs multando, Buzinas, Roncos, Sirenes, Motoqueiros. Quantas bactérias devem estar nesta gota que desce no vidro fechado da lotação? Imagine que ela é fruto da condensação da transpiração e respiração de todos nós? Porque não abrem o vidro quando chove? Deve ser a chapinha. todas mulheres fazem chapinha… Acho que vou pintar o cabelo. Ha! Que engraçado, eu pintando o cabelo? Até parece, por causa de um fio de cabelo branco? Se a turma do serviço descobrir esse fio de cabelo branco vão ficar me zuando. Melhor eu arrancar ele logo… Paca, você sabe que não tem nada a ver com pintar ou arrancar o fio e sim o que ele significa. Você está velho. Velho e atrasado. Tenho que comprar minha moto logo pra não andar mais de ônibus. Até o Zé, meu subordinado tem um carro. Não devia ter parado de pagar aquele consórcio. Se estivesse pagando até hoje, já seriam… 28 meses. Talvez já estivesse com o carro… Porque essa garota está olhando pra mim? Será que é o fio de cabelo? Ha! Quer me conhecer? Sou o Paca, apenas o Paca, não sou ninguém.
Nossa! Nova empreitada, é? Parabéns! Até aqui estou gostando… e até me identificando…(rsrsrs) vamos ver o restante.
Adorei a inicitaiva, parabéns aos dois ilustres autores!!
Há algo que me parece familiar, cuidado com a psico aqui!!!
Quero ver onde vai parar essa história!!